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Auto das perguntas que se fizeram a dois espanhóis que chegaram à Fortaleza de Malaca vindos de Timor na companhia de Álvaro Juzarte, capitão de um junco

Description level
Item Item
Reference code
PT/TT/CC/2/101/87
Title type
Formal
Date range
1522-06-01 Date is certain to Date is certain
Dimension and support
1 doc.; papel
Scope and content
Os dois espanhóis de nome Martín de Ayamonte, grumete da nau Victoria e Bartolomé de Saldaña, pertenciam à armada de Fernão de Magalhães e Elcano.
Access restrictions
Documentação sujeita a autorização para a consulta e a horário restrito.
Physical location
Corpo Cronológico, Parte II, mç. 101, n.º 87
Original numbering
CC-II-101-87
Language of the material
Português
Notes
Transcrição do documento:

Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e quinhentos e vinte e dois anos primeiro dia do mês de Junho da dita era nesta fortaleza de Malaca sendo Jorge d’Albuquerque fidalgo da casa d’el Rei nosso senhor capitão dela por o dito senhor chegaram ao porto da dita fortaleza Álvaro Jusarte capitão de um junco pequeno e João Moreno e Duarte Ferreira criados do dito senhor e um Brás Barreto / os quais vinham das ilhas de Timor que foram com outros juncos carregar de sândalo por mandado do dito capitão e Pero Soares de Sousa capitão de um dos juncos que eram na dita ilha achou dois homens castelhanos em poder de um lução que também aí estava fazendo sua carga / os quais dois homens castelhanos ele tomou e pediu aos sobreditos que aqueles dois homens trouxessem logo a Malaca ao dito capitão e os sobreditos por ser serviço de sua alteza os trouxeram logo e deixaram de fazer sua carga / os quais homens o dito capitão fez vir perante si e lhe fez as perguntas abaixo escritas//



Item fez pergunta o dito capitão a um dos ditos dois homens por nome Martim d’Ayamonte filho de Fernão Martins e de Marina Lourenço moradores no dito lugar d’Ayamonte por que maneira viera ter à dita ilha e por ele foi dito que era verdade que ele viera por grumete da nau Vitória de que era capitão Luís de Mendonça natural de Granada e mestre dela Antam Salamam albanês / e Vasco Galego piloto natural de Galiza e morador em Sevilha e era uma das cinco naus d’armada de Fernão de Magalhães com a qual o dito Fernão de Magalhães partiu do porto de Sevilha no mês d’agosto de quinhentos e dezanove e da//



uma das outras naus por nome a Trindade de que era capitão-mor Fernão de Magalhães e o mestre João Batista genoês e o piloto dela Estêvão Gomes português e de outra nau por nome Santo António era capitão João de Cartagena cavaleiro de Burgos e o mestre se chamava Orriaga biscainho e o piloto se chamava Gines de Mafra castelhano e de outra nau por nome Santiago era capitão João Serrano castelhano natural do Freixinal / e ele mesmo piloto e o mestre Baltazar genoês / e da outra nau por nome a Conceição era capitão Gaspar de Quezada e mestre João Sebastião biscainho e piloto João Carvalho português / com as quais naus e sobreditos capitães o dito Fernão de Magalhães partiu do dito porto de Sevilha e segundo parece do dito Martim seriam a ter duzentos e cinquenta homens na dita armada entre os quais seriam trinta portugueses pouco mais ou menos dos quais um se chamava Estêvão Gomes que era piloto-mor e outro João Carvalho também piloto e outro Gonçalo Rodrigues ferreiro natural de Leiria e Martim de Magalhães natural de Lisboa e se dizia parente do dito Fernão de Magalhães e um Afonso Gonçalves natural de Serra da Estrela e um por nome Nuno criado de Dom Martinho e um Rebelo criado do dito Fernão de Magalhães e outro por nome Estêvão Dias e que dos nomes dos outros não era lembrado e os outros eram castelhanos e homens de fora do reino e foram ter às Canárias onde estiveram seis dias e souberam como as naus de Portugal eram já passadas diante para a Índia e daí foram ter ao porto de Santa Luzia que é na terra do Brasil o qual se dizia quer era já descoberto dos portugueses onde estiveram quinze dias tomando água e lenha no qual porto João Carvalho português achou um filho seu que houvera de uma negra no tempo que aí esteve com um navio português / no qual porto o dito Fernão de Magalhães//



resgatou alguns paus de brasil para amostra e dali se foram ao longo da costa e foram ter ao porto de Santa Maria e daí passaram por o Cabo Frio e foram ter em uma enseada grande na qual era água doce e entrava muito por a terra a que eles não viram cabo e puseram em passar de uma ponta à outra seis dias onde tomaram água para suas naus e da dita ponta foram costeando um mês e meio até chegarem a um rio a que eles puseram nome São Julião na qual terra não havia arvoredo nenhum senão terra escalvada e muito fria no qual rio corregeram os navios e estiveram nele quatro meses e a gente da terra é pobre e andavam vestidos de peles e ante de serem os navios corregidos foi o João de Cartagena capitão da nau Santo António e vedor-mor de toda a armada e foi-se à nau de Luís de Mendonça mostrar-lhe um regimento d’el Rei de Castela como el Rei de Castela mandava que descobrissem o rio doce / e vissem se podiam passar à outra banda e sendo todos os capitães em este acordo a fazerem o mandado de seu rei Fernão de Magalhães não quis obedecer e eles querendo ver se o podiam haver à mão diziam que dali por diante se obedecesse aos mandados d’el Rei que onde lhe falaram por mercê até aí que dali por diante lhe falariam por senhoria e ordenaram que viesse Fernão de Magalhães a uma das naus deles para ali tomarem conselho como havia de ser e para o haverem de prender e ele receou-se deles e disse que mais razão era virem eles à sua nau e logo aquele dia se fez à vela e se veio pôr na boca do rio onde estavam e se pôs em armas e então mandou um esquife à nau Vitória com um alguazil e certos homens /os quais iam dissimulados como homens que iam de paz e eles iam armados secretos e tanto que foram dentro na nau por mandado de Fernão de Magalhães matarem a Luís de Mendonça//



capitão da dita nau e os marinheiros porque estavam bem com Fernão de Magalhães levantaram-se com a nau e vieram se pôr junto com a nau do dito Fernão de Magalhães que estava na boca do rio / e de noite com a corrente foi um marinheiro da dita nau de João de Cartagena por mandado de Fernão de Magalhães e alargou o cabo à nau e veio ter sobre Fernão de Magalhães e Fernão de Magalhães começou a atirar à nau e fê-la render e nesta nau tomaram um Gaspar de Quezada capitão da dita nau porque ao dito tempo não era já capitão dela o dito João de Cartagena por lhe ser tirada a capitania por Fernão de Magalhães e ao outro dia lhe mandou cortar a cabeça e as outras duas naus obedeceram-lhe logo e bem assim cortou a cabeça a Luís de Mendonça capitão da outra nau e esquartejar e desterrou a João de Cartagena e a um clérigo para aquela terra e depois de isto feito pôs-se a carregar as naus e pôs na nau de João de Cartagena por capitão Álvaro de Mesquita seu primo e na nau Vitória pôs por capitão a Duarte Barbosa seu cunhado e na outra nau pôs um João Serrano castelhano / o qual tinha mandado dali daquele rio com uma nau a descobrir a diante e perdeu-se e salvou-se a gente e veio ter por terra onde estava o dito Fernão de Magalhães e por este lhe ser sempre leal lhe deu a outra nau de que era capitão Gaspar de Quezada e depois das naus corregidas partiram o mês de Julho do dito rio e dali foram ter a outro rio que seria a vinte léguas e daí a cem léguas acharam um estreito em que há uma légua de terra a terra no mais largo e em lugares não era mais de largura que quanto cabiam duas naus a par e tudo de grande fundo e serras muito altas / e muito grandes//



frios e coberta de neve e é em sessenta e cinco graus d’altura ao sul e dali desapareceu a nau de que era capitão Álvaro de Mesquita e a presunção em todo será que o piloto Estêvão Gomes português prendera ao dito capitão e tornava em busca de João de Cartagena e do clérigo e que esta presunção era por um juízo que um astrólogo aí tirou por mandado do dito Fernão de Magalhães e dali estiveram em se tornar por ter pouco mantimento e contudo foram seu caminho a diante por o dito estreito em que há cem léguas e cometeram este estreito por quanto viam a terra sair muito ao mar e esperarem não a poder dobrar e ao sair da boca deste estreito havia sessenta e sete graus d’altura e dali saíram em um golfão de mar grande e largo em que puseram cinco meses de vento à popa até achar umas duas ilhas povoadas de gente selvagem que não tinham outro mantimentos senão cocos de palmeiras e davam-lhe com setas e bombardas e não davam por nada como gente bestial e outra terra nenhuma não viram em todo este golfão e dali a duzentas léguas vieram ter a um arquipélago de muitas ilhas em que viram muitos paraus e gente com ouro muito e isto senhor segundo eu tenho sabido é a par de Maluco em direito de Banda e nestas ilhas fizeram sua aguada e daí vieram ter a uma ilha por nome Maçava que era caminho de cinquenta léguas de uma a outra e com o rei da dita ilha fez o dito Fernão de Magalhães pazes / e daquela ilha o dito rei dela os levou a Cebu outro rei cujo vassalo ele é e este rei de Cebu tinha guerra com um rei de Matan que também é ilha e nesta ilha de Cebu dizem que há muito ouro e segundo o que me disto parece os bornéus tratam com estas ilhas que na mesma ilha de Cebu acharam homens de Bornéu e este rei de Cebu pediu a Fernão de Magalhães que lhe fizesse obedecer àquela outra ilha de Matan / e Fernão de Magalhães foi pelejar duas vezes com ele//



e tornando lá outra vez os outros armaram grandes covas e em saindo Fernão de Magalhães e os seus veio muita gente sobre eles e vindo-se recolhendo ao mar caiam nas covas alguns e todos mataram que seriam obra de vinte homens em que mataram também Fernão de Magalhães e depois o rei de Cebu como soube do desbarato de Fernão de Magalhães concertou–se com o rei de Matan para que matassem todos e tomassem as naus e ordenou-lhe um convite e no convite deram neles e mataram trinta homens / recolheram-se os outros homens às naus e vieram-se e por terem falecimento de gente queimaram uma das suas naus e daí vieram a uma ilha que se chama Pulohan que é d’el Rei de Bornéu e aí tomaram dois homens e então os levaram a Bornéu daquela parte de Maluco e eles chegando a Bornéu mandaram presentes em terra ao rei e iriam três ou quatro castelhanos com o presente e foram bem recebidos d’el Rei de Bornéu e disseram-lhe que pusessem sua feitoria em terra e suas mercadorias e que tratassem com eles a qual mercadoria puseram em terra que era cobre e escarlatas e isto fizeram os bornéus com intenção de os destruir e matar que logo ao outro dia pela manhã amanheceram obra de trezentos paraus que vinham sobre eles e os castelhanos como viram os paraus fizeram-se à vela e foram dar em cinco juncos que estavam aí ancorados e tomaram os três deles e os outros dois fugiram e tomaram muito despojo neles de panos de seda e algum ouro e caixas de Java que lançaram ao mar e ficaram na terra cinco castelhanos com a mercadoria que em terra tinham e puseram-se afastados da barra a uma ilha e nestes juncos que tomaram/ tomaram um filho d’el Rei dos luções / o qual filho do rei um Carvalho português que então era capitão o soltou escondidamente e estando naquela ilha surtos veio um parau d’el Rei de Bornéu com dois//



castelhanos e ficaram lá os ditos cinco castelhanos e levaram por aqueles dois homens todos os homens e mulheres que tinham tomado de Bornéu e nunca mais vieram a eles e então fizeram requerimento ao Carvalho que se fizesse à vela e logo se fizeram à vela e em uma ilha despovoada corregeram as naus e depois das naus corregidas saindo dela viram um junco d’el Rei de Pulohan e tomaram-no em que ia o dito rei com muita riqueza e o rei se resgatou com sua gente por arroz e porcos e cabras e galinhas e dali viram uma ilha a que foram e se chama Mindanau e naquela ilha tomaram um junco de que tomaram um piloto que os levou a outra ilha por nome Sanguim e dali tomaram outro piloto que os levou a Maluco à ilha de Tidore e ali surgiram e fizeram paz com ele e lhe disse que por seus feitiços achavam que eram partidas cinco naus de um grande rei maior que el Rei de Portugal e que ele obedecia a el Rei de Castela e que lhe queria dar cravo novo que esperassem dois meses porque o velho lhe não queria dar e deram ao dito rei uma cadeira de presente de carmesim e roupas de carmesim e de escarlate e quando lhe disse que esperassem dois meses disseram-lhe eles que tinham as naus velhas e que não podiam esperar tanto tempo e que se queriam logo ir e então mandou apanhar por todas as ilhas cravo com que carregou as naus e assim lhe deu algum cravo de portugueses que aí tinham tomado e posto em guarda e assim o cravo de juncos que lá eram de Malaca e veio aí ter el Rei de Ternate e com eles não quis tratar nem obedecer e que se quisessem que fossem lá alguns homens a ver como aquela ilha era d’el Rei de Portugal e qual cravo dos portugueses que estava enfardelado tinha nos fardos os nomes de seus donos e estando carregadas para partir as ditas duas naus uma delas de que era capitão o Carvalho//



por morte de Fernão de Magalhães por o dito Carvalho dormir com umas escravas que levavam para Castela e por dizer que vinha descobrir Bornéu para el Rei de Portugal o prenderam em ferros e fizeram a Espinosa alguazil capitão da nau e esta nau começou a fazer tanta água que não ousaram de se partir e tornaram a descarregar a nau e mandou el Rei buscar nadadores que viessem buscar aquelas águas e acharem-lhe a quilha quebrada e um furo grande à razão da quilha e por isso a descarregaram e ficou na ilha de Tidore com sessenta homens e a outra nau deram-lhe um piloto o qual os levou a Timor por ser monção e era isto no fim de Fevereiro quando a nau partiu de Timor e ali se deixou ficar o dito Martim com seu companheiro e ficaram com o piloto para os tornar a levar a Maluco onde ficava um presente do dito Martim onde o achou Pero Soares de Sousa que o tinha o dito lução e a nau quando partiu de Timor dava à bomba doze vezes de dia e doze de noite e o mestre e o piloto que eram gregos quiseram vir por Malaca e o capitão que era biscainho não quis e a sua intenção deles era segundo o dito do dito Martim irem às ilhas de maldiva para carregarem sua nau e daí irem seu caminho para essas partes e mais não disse.

Jorge de Albuquerque

Lopo Cabreira

Bernardes







No canto superior esquerdo:

Do Magalhães e dos que com ele foram.



No centro, em cima:

Junho 22 Fevereiro dos dois castelhanos

Lda.



No canto inferior esquerdo:

À minha senhora Dona Ana Henriques e se el Rei nosso senhor não tiver outra carta como esta mandar-lhes esta por isso vo-la mando por ir por duas vias que são coisas dos castelhanos.

Creation date
3/26/2010 12:00:00 AM
Last modification
11/15/2019 7:42:38 PM
Record not reviewed.